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Dominação e Resistência em « Queimada »

Síntese em torno das práticas imperialistas entre os séculos XVI e XIX , « Queimada » (« Burn! »,1969), dirigido por Gillo Pontecorvo, integra o Cinema Político Italiano, tendência entre 1960 e 1979 cuja preocupação foi apontar as contradições geradas pelo sistema capitalista nos mais diversos níveis e cenários. Sob o ponto de vista da atualidade, « Queimada » não é somente uma história ambientada em um passado distante, mas um precioso documento para o estudo dos reflexos da Guerra Fria sobre a produção cinematográfica. 

Queimada é uma suposta ilha de colonização portuguesa. Devido a rebeldia, os portugueses a incendiaram e eliminaram a população nativa. Posteriormente, foi estabelecido o Antigo Sistema Colonial caracterizado pela grande propriedade, escravidão africana, monocultura e produção voltada para a exportação.

Na primeira metade do século XIX, emanados das idéias iluministas, os ventos da liberdade sopraram misturados ao liberalismo econômico. Diante da impassividade da metrópole perante os novos tempos, os ingleses tomaram para si a tarefa de adequar a ilha às exigências do capitalismo industrial.

Para executar esse objetivo, desembarca em Queimada o agente William Walker (Marlon Brando), que engendra um processo de independência a partir de duas revoltas, uma dos senhores de engenho e outra dos escravos. Para os latifundiários o prêmio é o controle político e a manutenção da propriedade privada; para os escravos a liberdade e o consequente estabelecimento do trabalho assalariado.

A princípio os latifundiários dominam o poder, mas o líder negro José Dolores (Evaristo Márquez), forjado por William Walker, ocupa o palácio e expulsa os brancos. A imprevista revolta provoca outro  golpe de estado, desta vez pelos latifundiários, que estabelecem um regime ditatorial, cujo principal oponente será  José Dolores. Assim, a criatura escapou ao controle do criador, o que fazer com ela?

« Queimada » tem um acento do Neo Realismo italiano, tendência que precedeu o Cinema Político.  Adeptos de um cinema verdadeiramente popular, os neo realistas desejavam  usar o mínimo possível de atores profissionais. O diretor Pontecorvo colocou ao lado do superstar Marlon Brando o desconhecido Evaristo Márquez, nativo de Cartagena (Colômbia), onde foi rodado o filme. « Como Evaristo não tinha experiência alguma, Brando fazia tudo para facilitar sua vida; chegou a pedir que eu o enquadrasse de costas para a câmera, para que ele fizesse as expressões que o outro deveria reproduzir, olhando para o aparelho », declarou Pontecorvo.

No Brasil, « Queimada » teve cenas cortadas e acabou proibido pela censura da ditadura militar. Conta-se que um general, após assistir ao filme, recomendou que fosse retirado de cartaz pelo tema anticolonialista, pela exposição de guerrilhas e da execução de um presidente da jovem república. Liberado após a anistia (1979), foi exibido nos anos 80 pela Globo, ainda com cortes.

« O Leopardo » e a Unificação Italiana

« O Leopardo » (Il Gattopardo, 1963) sem nenhum favor, é um dos dez melhores filmes da história do Cinema, a começar pela direção de Luchino Visconti, mestre completo que emprestou seu talento ao cinema, ao teatro e à ópera.

Adaptado do romance homônimo, escrito pelo príncipe Giuseppe Tommaso di Lampedusa, o filme tem como pano de fundo político o movimento do “Risorgimento” e a Unificação da Itália; socialmente exibe a decadência da aristocracia e a ascensão da burguesia. Dentro dessa dinâmica, o príncipe Salina (Burt Lancaster) percebe que não adianta resistir aos burgueses, sendo melhor abrir espaço e acomodar-se a eles do que ser impiedosamente varrido. Os burgueses tem os recursos financeiros, os aristocratas a tradição e o prestigio, daí o lema do príncipe que conduz o roteiro: « as coisas precisam mudar para que continuem iguais ».

Em termos familiares essa transição é representada pela aproximação entre o príncipe Tancredi (Alain Delon), sobrinho de Salina, e a burguesa Angélica Sedara (Claudia Cardinale), filha do latifundiário burguês Calógero Sedara, neta de Beppe Merda. Apesar da união principiar por conveniência, o que desperta ciúmes e decepção de Concetta (Lucilla Morlacchi), filha de Salina e prima de Tancredi, o casal vive uma intensa paixão que se estenderia pela vida afora. A comunhão de interesses é coroada pela cena do baile, que dura cerca de vinte minutos, e tem seu ponto alto na valsa dançada por Angélica e o príncipe Salina.  

Filmado em locações na Sicília, a ambientação é primorosa nos mínimos detalhes. Visconti fez questão de perfilar os figurantes da cena do baile para checar os tipos físicos e os detalhes do guarda-roupa; na mesma ocasião, a comida servida era verdadeira e de acordo com a culinária local; as louças e talheres originais do século XIX; Cláudia Cardinale foi obrigada a usar espartilhos de verdade para ter uma postura condizente com as pinturas da época. A atriz queixou-se a Visconti que não conseguia sentar-se com essa peça de vestuário, ele não abriu mão, mandou fazer um banquinho especial para que ela se debruçasse.

Outro aspecto importante é a trilha sonora assinada por Nino Rota, o mesmo compositor que colaborou na maioria dos filmes de Federico Fellini. Com absoluto requinte, Visconti descolou para a trilha uma valsa inédita de Giuseppe Verdi, o mais importante compositor italiano do século XIX, e também um participante ativo no processo da Unificação da Itália. O filme recebeu o « David di Donatello », principal prêmio do cinema italiano, e a « Palma de Ouro » do Festival de Cannes, o principal festival do cinema mundial. 

O Muro de Berlim e o Cinema

Nada simboliza melhor a Guerra Fria do que o muro de Berlim.  Erguido em agosto de 1961, configurou um cenário absurdo ao isolar as duas partes de Berlim (Ocidental capitalista e Oriental socialista). Com a sua construção foram interrompidas 193 avenidas e ruas secundárias, 74 passagens entre os dois setores foram cimentadas. No total, segundo a agência AFP,  o muro media 155km de comprimento, dos quais 43 km dividiam Berlim de norte a sul, enquanto 112 km isolavam a porção ocidental do território da Alemanha Oriental.

O muro de Berlim não deve ser considerado como um resultado exclusivo da estupidez soviética, mas um monumento à insensatez humana. Para ganhar a guerra, os soviéticos foram úteis, porém, quando se avizinhava a derrota germânica, todos recordaram-se da incompatibilidade entre o Capitalismo e o Socialismo. Eliminado o nazismo, inimigo comum, os aliados começaram a rosnar uns para os outros e bateram de frente.

Foram os aliados que estabeleceram a nova ordem mundial. Ingleses, soviéticos e norte-americanos dividiram a Alemanha derrotada em quatro zonas: inglesa, soviética, norte-americana e francesa. A cidade de Berlim ficou dentro da zona soviética, mas foi também dividida em quatro partes, o que naturalmente a transformou numa zona de atrito. Ao final dos anos 40, estabelecidas as fronteiras da Guerra Fria, as quatro partes reduziram-se a duas, Berlim Ocidental transformou-se numa ilha cercada por soviéticos de todos os lados. A construção do muro foi uma espécie de crônica de uma morte anunciada.

O cinema fez vários retratos sobre a vida dos berlinenses durante a Guerra Fria. Sem recorrer a raridades,  podem ser encontrados:

Cupido Não Tem Bandeira (1961) – comédia de Billy Wilder que satiriza americanos, alemães e soviéticos. McNamara, executivo da Coca-Cola em Berlim, quer introduzir o refrigerante no Leste europeu, enquanto a herdeira de um alto executivo da mesma empresa, sob seus cuidados, apaixona-se por um jovem comunista. O filme foi rodado na época da construção do muro.

Asas do Desejo (1988) – é um filme contemplativo de Win Wenders. O cenário é Berlim, pouco antes da queda do muro. A cidade é a área onde o diretor destaca a experiência urbana contemporânea, marcada pelo isolamento cada vez maior dos invidíduos. Os protagonistas são dois anjos que se debatem em torno da possibilidade de se tornarem humanos, fato possível, porém irreversível.

https://www.youtube.com/watch?v=xKmnPyol3vY

Adeus, Lenin! (2003) – tragicomédia de Wolfgang Becker em torno dos efeitos da queda do muro de Berlim sobre a ex-Alemanha Oriental. O filme mescla cenas reais de documentários com as situações vividas pelos protagonistas. Surpreendente!

Glória Feita de Sangue

Dirigido pelo polêmico Stanley Kubrick, “Glória Feita de Sangue” (1957) é considerado por estudiosos em Cinema e História como o melhor filme em torno da Primeira Guerra Mundial ou Grande Guerra, cujo centenário do início ocorre neste ano de 2014. 

Baseado em “Caminhos de Glória”, romance de Humphrey Cobb, o roteiro conta a história de um general francês que, para rechear seu currículo com feitos notáveis, propõe a um coronel da linha de frente um ataque a uma posição alemã praticamente inexpugnável. Temendo ser rebaixado de posto, o coronel aceita a missão suicida que resultou em um fracasso total. Diante da iminente derrota, o general ordena que a artilharia bombardeie suas próprias posições, fato que não chega a consumar-se. Como represália, três soldados são escolhidos aleatoriamente por seus oficiais para serem julgados em uma Corte Marcial por “covardia diante do inimigo”. Após um julgamento sumário é decretada a sentença de morte. 

As Reais Condições de Combate

A Primeira Guerra Mundial é considerada a mais sangrenta do século XX, dado o poder de fogo à curta distância. Na Frente Ocidental, em território francês, os combates eram travados a partir de trincheiras. Cavadas com profundidade suficiente para abrigar os homens do fogo inimigo, com um parapeito de terra à sua frente, as trincheiras estavam permanentemente enlameadas, às vezes inundadas, cheias de corpos de homens e de animais feridos ou mortos. Atormentados por ratos, piolhos, bombardeios, os homens de ambos exércitos dormiam, alimentavam-se e morriam na terra, estafados. 

Para atacar, as tropas carregando rifles e equipamentos pesados avançavam através de emaranhados de arame farpado, sob fogo cerrado de metralhadoras, fuzis, granadas, gases venenosos e lança-chamas. Frequentemente os mortos pendiam como frutas podres nas cercas. A curta distância dificultava o uso da artilharia pesada, muitas vezes cálculos errados produziam “fogo amigo”, ou seja, os projéteis caíam sobre as próprias tropas que avançavam. 

Os Limites Entre o Filme e a História 

Segundo o pesquisador francês Marc Ferro, pioneiro na metodologia de estudo das relações entre Cinema e História, o filme teve como objetivo agradar aos pacifistas. Diz ele que “possivelmente há verdades neste filme, porque todos os pequenos fatos que explica Stanley Kubrick são autênticos: o general existiu, o coronel idem. Porém não foi tudo junto nem no mesmo lugar; em nome da unidade de espaço e tempo, e de dramatização, o roteiro os juntou”. 

Todavia, a verdade é que as execuções de soldados existiram na França. O consagrado historiador Albert Mathiez quantificou aproximadamente 2700 vítimas. Não é à toa que “Glória Feita de Sangue” teve sua exibição proibida na França por um longo tempo.

 

Getúlio, o filme e a história

“Getúlio”é uma cinebiografia dos últimos dezenove dias do presidente Vargas (1882-1954), encarnado por Tony Ramos. Dirigido por João Jardim, que afirma ter pesquisado cinco anos em torno do tema, aborda os acontecimentos a partir do atentado contra o político e jornalista Carlos Lacerda (1914-1977), ocorrido  em cinco de agosto, até o suicídio do presidente em 24 de agosto de 1954. 

O roteiro de George Moura concentra a trama na pressão exercida sobre Vargas pela UDN (União Democrática Nacional) e pela alta oficialidade da Aeronáutica em consequência da descoberta da participação de elementos de sua guarda pessoal no atentado em que  Lacerda (Alexandre Borges) foi ferido, e o Major Rubem Vaz assassinado. 

O filme é sequenciado cronologicamente, não contém flashbacks ou alegorias a partir da imaginação dos personagens. A película corre como um livro didático, chegando mesmo ao exagero de personagens se referirem a certas autoridades pelo nome completo. Nesse aspecto é plenamente satisfatório, dado o espaço de sessenta anos (1954-2014) entre a tragédia e o filme. Por outro lado é claustrofóbico e angustiante. Conforme o próprio diretor afirma, “quis mostrar como o poder pode ser uma prisão e como a única saída, para Vargas, foi o tiro no peito”. 

Ao enfatizar pelas imagens e pelos silêncios a solidão de Vargas nos seus últimos dias, o filme tende a humanizar um político que na vida real foi ambíguo e em determinados momentos de uma frieza glacial. Basta lembrar que praticamente determinou a sentença de morte de Olga Benário, comunista alemã de ascendência judaica, companheira de Luís Carlos Prestes, ao entregá-la grávida às autoridades nazistas. 

Como toda história tem no mínimo dois lados, o suicídio de Vargas pode ser encarado sob outro prisma. Na primeira semana após o lançamento do filme, o embaixador e ex-ministro Rubens Ricúpero, em artigo na Folha de São Paulo, abordou o texto do jornalista e professor suíço Albert Béguin, que lecionou um período em Belo Horizonte, escrito em outubro de 1954. 

Béguin valoriza Vargas como político « cínico, mas inteligente, quase o único no Brasil, além dos comunistas, com consciência dos problemas modernos e da ascensão das massas ». Ele refuta a versão do suicídio como um gesto de desespero. Pelo contrário  vê certa « grandeza assustadora, um último ato político, o único pelo qual poderia desconcertar os inimigos e arruinar-lhes o triunfo ». O suíço também realça que o vocabulário da carta-testamento político e algumas paráfrases lhe parecem estranhamente evangélicas, mas admira o sangue-frio de uma consciência que, na hora da morte, se encontra totalmente voltada para o desejo de « sobreviver na história não como uma lembrança, mas como um fermento ativo ». 

Getúlio saiu morto, circundado pelo “mar de lama” (expressão usada por Carlos Lacerda para caracterizar a situação na Tribuna da Imprensa, jornal oficioso da UDN). O gesto extremo e a carta-testamento tiveram o efeito desejado, a imagem do « pai dos pobres » redimida influenciou as eleições presidenciais seguintes que escolheram Juscelino Kubitschek e João Goulart.  A oposição ganhou, mas não levou. 

Revolução dos Cravos: Liberdade em Portugal, Coragem e Terror na USP

Para os portugueses o 25 de Abril de 1974 representa a redenção de um regime ditatorial iniciado em 1933, comandado na maior parte por António de Oliveira Salazar. Seu sucessor, Marcelo Caetano, deposto pela Revolução dos Cravos, exilou-se no Brasil sob os auspícios da ditadura militar e aqui faleceu em 1980.Revolução_Cravos

 

Alguns dias após a Revolução dos Cravos, houve na USP, no pátio do edifício da História e Geografia, um ato comemorativo pela queda da ditadura portuguesa. A mesa foi composta por destacados exilados políticos lusitanos. Os discursos começaram em um tom moderado, até que um general baixinho, o mais velho de todos à mesa, exaltou-se e pregou contra todas as ditaduras. 

Diante da coragem do octogenário, os estudantes entreolhavam-se espantados. O general Médici acabara de sair em março, era o primeiro mês de governo do general Geisel. Todos imaginaram que lá fora haveria um camburão esperando para conduzir o velhinho ao DOI-CODI. 

A presença de fotógrafos gerava um clima ao mesmo tempo de júbilo e terror. Para quem conhece o edifício, muitos dos que se apinhavam nos corredores elevados externos, para ter uma melhor visão, escondiam o rosto com as mãos ou com cadernos. Simultaneamente, corria como pavio aceso a idéia de que os órgãos de repressão usariam o material fotográfico como pretexto para posterior prisão dos presentes. 

Encerrado o ato, nenhuma viatura policial apareceu, nem mesmo as temidas peruas Chevrolet Veraneio de placas frias, empregadas pelo DOPS, deram as caras. O fantasma de uma represália pairaria ainda por vários anos.

Estariam as portas começando a se abrir? 

Em 1974, o medo era a única certeza.

 



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