Articles de la catégorie Musique

Surpresas de Uma Noite de Outono

Música erudita contemporânea é como um prato estranho em um restaurante exótico. Pode-se ir com a cara da coisa ou murmurar aquele argh!!!!!! Particularmente, sempre dou uma garfada, mas se tiver gosto de ovo ou coentro no tempero, saio correndo, escovo os dentes e tomo um café sem açúcar para espantar a praga.

Essa sequência passou em uma fração de segundo pela minha cabeça. No Primeiro de Maio ao chegar  na Sala São Paulo, abri a Revista Osesp e deparei com a estreia mundial da « Rua dos Douradores – Litania da Desesperança », do compositor brasileiro Aylton Escobar, que se encontrava na plateia, como é de praxe nas estreias de peças encomendadas, neste caso pela OSESP e pela Fundação Gulbenkian, de Portugal.

Dado o patrocínio luso-brasileiro, o compositor debruçou-se sobre o « Livro do Desassossego », de Fernando Pessoa (1888-1935). « Composto de centenas de fragmentos, dos quais Fernando Pessoa publicou apenas doze, o narrador principal deste livro é o semi-heterônimo Bernardo Soares. Oscilando entre temas como as variações de seu estado psíquico, a paixão, a moral e o conhecimento, o livro não apresenta uma narrativa linear; antes é composto de diversos trechos e partes que se articulam de maneira mais ou menos aberta. Ainda assim, é a obra de Pessoa que mais se aproxima do romance. » (Cia. das Letras, apresentação da edição de 1999).

A Rua dos Douradores (foto), era a morada de Bernardo Soares, « aposentado em Lisboa ». Segundo o compositor, a obra musical não deu lugar a vibrações demasiado estridentes ou « tuttis » iridescentes. Em lugar disso preferiu trazer recônditas paisagens que a orquestra reconstrói como abrigo para o poeta: paredes e janelas, atmosferas. As vozes do coro – um eu multiplicado – só tiveram de misturar os cacos do espelho em que se estilhaçam o rosto e a alma da personagem comum que caminha pelos bares e ruas de uma cidade qualquer.

Enquanto eu estava entretido nessa leitura a orquestra entrou, fez seu ritual, aplausos para o maestro finlandês Osmo Vänskä.

Começa a música. A menção pelo coral da « Rua dos Douradores » transportou-me para « Páginas da Revolução », filme de Roberto Faenza (1996), baseado no romance « Il Sostiene Pereira » (Afirma Pereira), do italiano Antonio Tabucchi, estrelado por Marcello Mastroianni, um dos ícones do cinema italiano da segunda metade do século XX.

O filme se passa em 1936, início da ditadura de Oliveira Salazar. No seu trajeto diário, Pereira tomava o elevador da Glória, um bondinho que circula entre a Baixa e a Alta Lisboa por uma ladeira estreitíssima (foto). Em 1998, fiz em Lisboa o trajeto de Pereira, porém, por um transitório problema oftalmológico, tinha a visão turva. Resumindo a ópera, praticamente via quadros impressionistas. Esse ver-não-vendo era alternado ora pela angústia, ora pela piração nas imagens distorcidas.

Foi exatamente isso que senti durante os vinte minutos de duração da obra de Aylton Escobar. Aplaudi de pé, só faltou o selfie com o compositor. Viajei de graça à Lisboa em vinte minutos. Durante o intervalo, ainda meio em transe, saí da sala de concertos e desci para o saguão, olhei pelos vidros a gare da antiga estrada de ferro Sorocabana, lembrei-me do trem para OZ… OZasco… Anos 70… Mas como dizia Julio Gouveia, « isso é uma outra história, que fica para uma outra vez ».

Lisboa_Bondinho Rua_dos_Douradores

“New Orleans” – Isto Também é Hollywood!

« New Orleans », dirigido por Arthur Lubin, é uma preciosidade por reunir na tela Louis Armstrong  e Billie Holiday, ambos integrantes do top five da história do jazz, o que assegura uma trilha sonora impecável com standards como « The Blues Are Brewin » e « Basin Street Blues ».

Armstrong e Billie são namorados. Ele é Satchmo, líder de uma banda de um cabaré frequentado majoritariamente por negros; ela é Endie, empregada doméstica. Os papéis principais cabem a Arturo de Cordova (Nick Duquesne, o « Rei da Basin Street », dono do cabaré onde toca Armstrong e também de um cassino) e Dorothy Patrick (Miralee Smith, garota da alta sociedade, cantora de ópera).

Na trama, por meio de Endie, Miralee vai a uma apresentação de Satchmo, se apaixona pelo jazz e por Duquesne. A sra. Smith (rica empresária, mãe de Miralee) repudia o romance, enquanto Duquesne insiste em manter o relacionamento. Para afastá-lo, a influente senhora apela às autoridades para fechar os cabarés e cassinos de Basin Street. Miralee vai com a mãe para a Europa e torna-se uma diva da ópera; Duquesne vai para Chicago, abandona a exploração do jogo e da prostituição e se torna um empresário bem sucedido no ramo artístico, o suficiente para simbolizar a expansão do jazz de New Orleans para o resto dos Estados Unidos e para a Europa.

Aparentemente ingênuo, produzido em 1947, « New Orleans » contém um roteiro hipócrita como muitos da sua época. Entre as décadas de 1930 e 1950, Hollywood submeteu-se ao Código Hays, um conjunto de normas para a produção cinematográfica elaborado principalmente por mentores católicos, acatado pela indústria cinematográfica e endossado pelo governo federal. A censura era realizada sobre os roteiros, não sobre os filmes prontos. Na mesma época, a indústria monopolizava a produção, distribuição e a exibição dos filmes; descontentar qualquer fatia de público significava prejuízo para as grandes empresas como a Metro Goldwin Mayer, Warner Brothers, Twentieth Century Fox, RKO Radio Pictures e Paramount.

Sendo um filme destinado a um público branco em sua maioria, Armstrong e Billie são empregados; os negros eram excluídos de papéis centrais. A mãe de Miralee condena o romance com Duquesne e só o aceita quando se transforma em um empresário de sucesso; o código condenava qualquer referência que pudesse estimular simpatia por atividades ilegais. No final, para completar, aparece no escritório de Duquesne o clarinetista branco Woody Herman, que com sua orquestra de brancos executa a cena final junto de uma sinfônica cuja voz solista é Miralee, executando um tema anteriormente cantado por Endie. Assim, os brancos aceitam o jazz, desde que tocado por brancos. Os negros literalmente desaparecem, a última referência a Endie é dada por Satchmo, quando Miralee pergunta por ela, e ele responde:- Nós nos casamos.

Segundo Ben Hecht, importante roteirista da era de ouro, « o cinema introduziu na mente dos norte-americanos mais informação falsa em uma noite que toda a Idade Média em uma década ». Isto também é Hollywood!



Mentions légales

Flux RSS. Blog propulsé par Wordpress et Modern Clix, thème par Rodrigo Galindez.